São duas da madrugada de uma sexta-feira em Alto Paraíso, cidadezinha 200 quilômetros para lá de Porto Velho, Rondônia. A maior parte dos 17 mil habitantes veio do Paraná, nas décadas de 70 e 80, mas o som que come solto numa das ruas laterais da única praça é o funk dos morros cariocas. À vontade, no meio da floresta desmatada, polaquinhas de Trevisan e irmãs caçulas de Gisele Bündchen se requebram ate o chão, desconhecendo sua sensualidade explosiva.
Num ambiente de festa junina em fevereiro, há dezenas de barraquinhas néon, cada uma com um Techno-bate-estaca diferente e mais alto. Os sons se confundem com os trinados afinadíssimos dos vencedores do festival de música da cidade, que, num palco mais adiante, apresentam sucessos gospel e sertanejos.
O agito é parte das comemorações de emancipação do simpático município, que tem suas raízes remotas na política do "integrar para não entregar", conduzida pelos governos militares. As festividades, que incluem um rumoroso corso, têm seu ponto alto no domingo, quando é disputado a Corrida Nacional de Jericos Motorizados, uma corrida que atrai gente da capital, das cidades vizinhas e ate de outros estados.
Jerico é a denominação local para o principal meio de transporte de Alto Paraíso. É um tipo de veículo que lembra, visualmente, o automóvel em seus primórdios. Feito em oficinas locais, a partir de sucata e um motor estacionário a diesel (de bombas d'água de garimpo ou geradores de eletricidade), não tem qualquer conforto dos carros modernos.
"Jerico Moderno" desfila nas avenidas de Alto Paraíso. É o jerico motorizado que tem ajudado o home do campo a mover o Brasil profundo. Num país em que jipes e picapes a diesel têm preços de carros de luxo, o jerico é a solução possível e encontra uso em várias regiões. No interior do Mato Grosso, o bicho leva o nome de Baco-baco. Em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul (estados que inventaram esse meio de transporte nos anos 70) usa-se também o nome de jibata. Os apelidos mudam de uma cidade para outra: tuiuiú, burrão, rural, tuc-tuc...
Alto Paraíso - que fora dos dias de festa é quieta até demais - criou para si, com orgulho e razão, o titulo de "Capital do Jerico". A prefeitura estima que entre o centro e a área rural da cidade rodem uns 1.800 veículos desse tipo - contra apenas 217 automóveis e 111 picapes convencionais emplacados no município (dados de 2007).
Os primeiros exemplares chegaram junto com migrantes de Santa Catarina faz mais de 20 anos. Com o tempo, as oficinas da cidade foram melhorando e popularizando os carrinhos.
Para entender o que acontece e ver a beleza que existe na simplicidade dos jericos, é preciso despir-se de todos os parâmetros urbanos e preconceitos pequeno-burgueses. Para rodar em Alto Paraíso, não há nada melhor. Dúvida? Então vamos numerar algumas de suas vantagens: o veículo serve como carro de passeio, leva gado, puxa ração, é ônibus e ambulância. Nos dias de trabalho, carrega madeira, leite e sacas de café. No fim de semana, não descansa, levando seus donos à feira e à missa.
" Devagar e sempre, à média de 25km/h "
Aqui predominam caminhos de terra, ensaboados pela chuva do inverno amazônico, e o jerico não empaca na lama. Não é preciso muita velocidade e as distâncias são relativamente curtas. E lá vai o jerico cruzando estradas vicinais a 25km/h com seu som inconfundível - um grave e caco fônico "pa-pa-pa-pa-pa" do motorzinho mono ou bi-cilíndrico contando as rotações. Com chassis superdimensionado, geralmente doado por velhos Jeep e picapes Willys, o risco de quebra é mínimo. Além disso, a mecânica a diesel pede pouca manutenção.
Considerados implementos agrícolas, os jeriquinhos (como são tratados afetuosamente por seus donos) não usam placas nem pagam IPVA. E não é preciso ter carteira de motorista para dirigi-los. Desde garoto já se aprende a dominar a máquina para as lidas do campo.
Outro argumento forte é que o jerico não tem sede. Num lugar em que o litro de gasolina custa R$ 3 (em 2007), tudo o que se pode querer é um carro a diesel, e que beba pouco. São 20km/l.
Por proteção divina ou pela combinação de trafego ralo com pouca velocidade, quase na há acidentes. Em mais de 20 anos de jericos na cidade, fala-se apenas de três desastres fatais. Em todos, o motorista tentava ir alem das capacidades da maquina, ou alguém havia bebido demais.
Mesmo ganhando parte elétrica, muitos desses veículos ainda tem partida por manivela. Jerico não tem chave nem segredo, mas ninguém rouba - deixa-se a manicula guardada embaixo do banco sem preocupações. Isso que é lugar civilizado.
E não há um jerico igual a outro. Cada um tem suas soluções mecânicas e pequenas diferenças em relação aos demais.
Assim vão os pioneiros paranaenses de Rondônia, refletindo a pureza de suas vidas nos veículos que dirigem. Parafraseando Euclides da Cunha, o jerico é antes de tudo um forte.
Texto: Jason Vogel - Jornal O Globo Caderno CarroETC, Rio de Janeiro, 2007
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