Parece que voltamos ao tempo em que Henry Ford fez seu primeiro automóvel, com poucos recursos, mas muitas idéias. A fábrica de Jericos San Reno é de madeira, na parte aberta para a rua, os carros são montados a um ritmo de três unidades a cada dois meses. O dono Silvio Stedile, mora com esposa e filhos nos fundos da construção, alem dele, mais cinco funcionários fazem serviços de tornearia e montagem.
Todas as oficinas de Alto Paraíso (são 12 em 2007) fazem jericos, mas a San Reno cuida do processo do começo ao fim.
A cada dois meses, Silvinho pega o caminhão e vai a Mato Grosso, ao interior de São Paulo e até ao Paraná, passa 20 dias procurando chassis e transmissões de Jeep e picapes Willys.
- Desmonto tudo com cuidado antes de botar no caminhão. Os donos de ferros-velhos acham que o pessoal de Rondônia é doido por querer esse material, comprado a peso - conta o jeriqueiro.
Parrudos e com peças baratas, os velhos Willys são doadores de chassis a uns 90% dos jericos de Alto Paraíso.
Para dar nova vida aos 4x4, compram-se motores estacionários usados das marcas Yanmar e Agrale (os da Tobatta, que já equiparam muitos jericos, saíram de linha).
- Gosto de comprar motores fundidos em garimpos de Moto Grosso. Custam entre R$ 1 mil e R$ 1.500. Depois é só retificar - diz Silvio.
Com a recente eletrificação da zona rural, geradores também passaram a tocar jericos.
Um dos motores mais usados é o Yanmar NSB18, de um cilindro, 866cm3 e 15cv. Quem puder pagar mais, leva o BTD22, de dois cilindros, 1.717cm3 e 22cv.
O diesel desce por gravidade até a bomba injetora. Aí cabe a quem monta manter o ajuste e evitar que o motor queime rico e solte fumaça negra.
Os motores são ligados à caixa de câmbio do Jeep por meio de polias e duas correias de borracha. É o "adaptador", coração do veículo artesanal.
Quando visitamos a San Reno, Silvinho se recuperava de uma capotagem nos treinos para a corrida de Alto Paraíso (2007). Sem capacete, foram quinze pontos na têmpora esquerda. Mesmo assim, o jeriqueiro não deixava de servir cafezinho aos clientes que chegavam à fábrica:
- Um jerico de um pistão sai por uns R$ 8 mil (em 2007). O de dois custa até uns R$ 15 mil (em 2007), dependendo do que se quiser botar - explicava aos interessados.
No jerico tudo é opcional: faróis, setas, luz de freio e partida elétrica são uma ostentação que custa R$ 1.500.
Pode-se também instalar um terceiro eixo, que leva a capacidade de carga a 2,5 toneladas. Isso tudo com o motorzinho de um cilindro...
- Em Alto Paraíso, é mais fácil acabarem com os carros do que com os jericos. Cada garoto que cresce quer ter o seu - diz o fabricante.
Texto: Jason Vogel - Jornal O Globo Caderno CarroETC, Rio de Janeiro, 2007
pesquisar